terça-feira, 24 de abril de 2012
Lançamento de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"
sexta-feira, 13 de abril de 2012
As Portas do Diabo
Hoje, sexta-feira treze, é um dia excelente para publicar um excerto do Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência, 2012). Intitulado As Portas do Diabo, fala, em principal, sobre a lenda da construção das portas da catedral parisiense de Notre-Dame. Não sejam supersticiosos e atrevam-se a ler.
(Segundo a lenda, o bispo francês Maurice de Sully mandou construir a catedral de Notre-Dame no local onde ficava um templo galo-romano de adoração a Júpiter.)
«Diz a sabedoria popular que as mãos ociosas são o instrumento do Diabo; e é neste chavão que reside a noção, difundida pelas fés de raiz ou têmpera protestante, de que a ociosidade é um pecado. Esta ociosidade, contudo, difere do pecado mortal da preguiça – que não é uma preguiça do corpo, mas do espírito: a falha em realizar os propósitos de Deus. Com efeito, no que concerne à preguiça e à divagação, o cristianismo é relativamente benevolente, de acordo com a ideia da divina providência, que cuida de todas as criaturas sem que estas precisem de laborar. Coteje-se esta concepção com a do Diabo trabalhador, frequente tanto nas fontes populares como nas eruditas, embora seja nas primeiras que os relatos fabulosos de diabos construtores reverberem com maior vigor o espírito do seu tempo.
Não deixa de ser revelador da real diferença de atitudes em relação à ociosidade “malandra” e ao pecadilho canónico da preguiça, mesmo em culturas onde o protestantismo medrou com mais viço, como as do Norte da Europa. Encontramos um excelente exemplo dessa dicotomia numa cândida gravura incluída no livro Historia de Gentibus Septentrionalibus (História das Gentes do Norte), publicada em 1533 por Olaus “Magnus” Mansson. Nesse desenho, três demónios do Inferno parecem genuinamente felizes em ajudar os homens a realizar trabalhos pesados, como extrair minério, varrer o estábulo e tratar dos cavalos e, ainda, remar um barco cheio de passageiros, ao mesmo tempo que, por artes mágicas, se produz um clima agradável à viagem. Extraordinária é, também, a carroça voadora – com passageiros – que é puxada pelos ares por um demónio serpentiforme que faz lembrar os dragões chineses ou, com as devidas distâncias, o dragão Falkor do livro Die Unendliche Geschichte (A História Interminável) do escritor alemão Michael Ende (1979) – centenas de anos antes do advento da aeronáutica, consiste numa representação inesperada. Porém, a mais conspícua representação do Diabo construtor é a de pontifex: fazedor de pontes.
Existem imensas histórias sobre pontes construídas pelo Diabo – em alemão são tão numerosas que cunharam um adjectivo próprio: teufelsbrücke (pontes do Diabo). Na Suíça há uma ao lado da casa em que nasceu Paracelsus; e em França uma ponte fortificada do século XIV, a Pont de Valentré da comuna meridional de Cahors, cujos arcos góticos sustentam cinco belíssimos torreões, é tida como uma das obras-primas do Diabo e para que ninguém se esqueça de quem foi o construtor, pode ver-se, empoleirada numa das esquinas superiores do torreão central, uma escultura de um diabo atrevido, entre o réptil e o primata. Uma das pontes fortificadas mais célebres da literatura fantástica e que me evoca a Pont de Valentré, uma das mais magníficas e bem-conservadas pontes fortificadas, é a formada pelo conjunto de ponte e duas torres chamado The Twins (As Gémeas), integrante na série de fantasia A Song of Ice and Fire (As Crónicas de Gelo e Fogo), do escritor norte-americano George R. R. Martin, e que consiste na casa do untuoso lorde nonagenário Walder Frey.
Um elemento presente na maioria das histórias sobre as pontes construídas pelo Diabo é o do pagamento por ele exigido na forma da primeira alma que passar pela obra recém-erguida e os diversos artifícios que os homens engendram para ludibriá-lo. De modo geral, encontram uma maneira de chamar um animal e fazê-lo atravessar a ponte, como cães ou gatos. Uma lenda popular conta como o santo galês São Cado, na altura bispo, enganou o Diabo, dando-lhe um gato como pagamento pela construção da ponte que liga a Ilha de São Cado à região francesa da Bretanha. Ao já mencionado Jack o’Kent também é imputada uma façanha semelhante, mas com um cão.
Em Portugal existem diversas pontes do Diabo, como a Ponte de Val-Telhas que, segundo as gentes da freguesia de Torre de Dona-Chama, do concelho de Mirandela, foi construída pelo Diabo numa só noite, enquanto cantava alegremente. Outra é a Ponte de Domingos Terne, sobre o Rio Ave, na freguesia de Esperança, do concelho de Póvoa do Lanhoso, feita pelo Diabo para ajudar dois namorados que moravam em margens separadas. Conta a história que o Diabo todas as noites levantava a ponte para o rapaz encontrar-se com a namorada (na gíria local diz-se conversada). O padre da paróquia calhou a ver o sucedido e na noite seguinte, quando o Diabo levantou a ponte, benzeu-a e o mafarrico deixou de ter poder sobre ela, deixando-a onde ficou até hoje. Acrescente-se que o orago de Esperança é São Bartolomeu, o carcereiro do Demo, e na minha opinião é possível que, algures no tempo, a sua figura tenha dado origem à do padre que benzeu a ponte. Tanto a ponte de Val-Telhas como a de Domingues Terne (ou de Mem Guterres) são românicas (não confundir com romanas, já que muitas construções, em principal pontes e estradas, têm sido chamadas de romanas sem sê-lo): a primeira já aparece referenciada em 1258, nas inquirições gerais de D. Afonso III sobre as posses da nobreza e do clero, e a segunda data, provavelmente, dos últimos decénios de 1300. E falando no século XIV, e no Diabo, concluo este texto com a lenda das portas da catedral parisiense de Notre-Dame.
Começada a construir no século XII e concluída em meados do século XIV, Notre-Dame é uma das mais antigas igrejas góticas europeias e uma das primeiras nas quais se ergueram com sucesso os revolucionários arcos botantes: estruturas que contrariam a pressão lateral exercida pelas paredes altas de uma construção de grandes dimensões. O nome catedral relaciona-se com o facto de ser a igreja em que está situada a cadeira do arcebispo (cathedra significa cadeira em latim). Ainda hoje, Notre-Dame é a sede do arcebispado de Paris e guarda três relíquias da Paixão: um dos pregos com que Cristo foi crucificado, um pedaço da cruz e, talvez a mais importante, a proverbial coroa de espinhos; normalmente, são mostradas aos fiéis nas primeiras sextas-feiras de cada mês e todas as sextas-feiras durante a quaresma, às três horas da tarde, e na Sexta-Feira Santa das dez horas da manhã até às cinco horas da tarde. Apesar de tão veneráveis preciosidades, o edifício sempre manteve uma aura endiabrada e uma das suas lendas conta como as portas de ferro forjado que testemunharam a sua inauguração foram, de facto, feitas pelo Diabo.
A fachada Oeste (a principal) de Notre-Dame tem três entradas: a Porta da Virgem, a Porta do Juízo Final e a Porta de Santa Ana, cada uma decorada de modo distinto nos tímpanos, arquivoltas e colunas de pedra, de acordo com a vida da personagem bíblica à qual é dedicada. A lenda conta que um ambicioso ferreiro ou caldeireiro à jorna, desejoso de ser promovido a mestre, ofereceu-se para criar as novíssimas portas de ferro de Notre-Dame (na verdade, são seis portas, porque cada entrada tem duas portas). No entanto, ele depressa descobriu que a tarefa era demasiado difícil para os seus dotes e sentiu-se desesperado; foi nessa hora maldita que apareceu um misterioso artificie chamado Biscornet e lhe propôs ser ele a fazer as portas.
Quando o espantado jornaleiro perguntou como poderia pagar, o estranho respondeu-lhe que podia pagar com a alma: Biscornet era, claro, o Diabo disfarçado. A perspectiva de ser arrebanhado para o Inferno era desconsoladora, mas a emergência da tarefa não deu escolha ao pobre jornaleiro que concordou com o pacto diabólico. Ao chegar à oficina no dia seguinte o jornaleiro descobriu que quatro portas já estavam terminadas: cada uma consistindo num trabalho lindíssimo e impecável, feito numa só peça de ferro forjado, sem remendos ou soldaduras, espalhando-se com finura em formas graciosas; olhando com atenção, descobriu no ferro forjado diversas pequenas figuras cornutas em relevo: eram a marca d’água do mestre infernal.
Embevecido e receoso ao mesmo tempo, o jornaleiro perguntou ao Diabo porque é que não fizera as duas portas para a entrada do meio (a principal), e ele respondeu que era incapaz de fazê-las porque seria por elas que a hóstia e o vinho da eucaristia passariam nas procissões. Desse modo, o jornaleiro salvou-se de ser roubado da alma pelo Diabo, porque este foi incapaz de completar a tarefa, e ainda ficou com quatro magníficas portas, graças às quais foi promovido a mestre. A história, contudo, não diz nada sobre a feitura das remanescentes duas portas.
A versão mais popular da lenda conta que as Portas do Diabo foram substituídas na recuperação total do edifício chefiada pelo subversivo arquitecto francês Eugène Viollet-le-Duc, iniciada em meados do século XIX, e perdeu-se o seu paradeiro. Quem sabe se o próprio Diabo, saudoso de um trabalho bem-feito, não foi buscá-las ao armazém para servirem de portas ao Inferno. Gosto de imaginar os motivos intrincados que ele modelou a ganharem vida com o calor do mundo inferior e a estorcegarem-se como vermes de fogo à aproximação das almas danadas.»
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Capa e apresentação de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"

A apresentação terá lugar no auditório da 82ª Feira do Livro de Lisboa, no dia 12 de Maio (em hora a anunciar), e será realizada pelo insigne escritor e cineasta António de Macedo.
terça-feira, 27 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Pré-publicação do "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"

A Revista BANG! é um exclusivo das lojas FNAC: procurem a loja FNAC mais próxima da vossa área, levem a Revista BANG! para casa e leiam, em primeira mão, um dos inúmeros segredos sombrios que o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes tem para vos contar.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Bestiário: a quarta via

No entanto, é provável que, durante as suas múltiplas campanhas, os exércitos portugueses tivessem sido recebidos pelos nativos com bombas de barro ou de cerâmica, cheias de abelhas, porque essas armas eram muitíssimo comuns: tanto que, na verdade, a palavra bomba, assim como bombarda (canhão), tem como étimo a palavra grega bómbos, que significa zumbido das abelhas. Os mais sofisticados projécteis primitivos usados pelos nossos antepassados, desde o paleolítico, foram colmeias e toscos invólucros de terra, barro e osso recheados de abelhas, vespas, formigas e até escorpiões. Com efeito, alguns dos primeiros relatos conhecidos sobre animais são descrições de como é possível utilizá-los como armas de guerra - como pode ler-se, por exemplo, no tratado Como Sobreviver Durante um Cerco, de Eneias, o Táctico, escrito no século IV a. C., e que aconselha os cidadãos cercados a soltarem abelhas nos túneis cavados pelos inimigos.
Foram, provavelmente, estas descrições quase marginais que inspiraram a escrita dos primeiros bestiários.

A quarta via do Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes é o bestiário.
É possível que o primeiro bestiário seja o tratado anónimo, escrito em grego e datado do século II, intitulado Physiologus (O Naturalista), que consiste numa enciclopédia da vida animal, mas em que as espécies - tanto as reais, quanto as mitológicas - não são descritas de um ponto de vista científico, como em Naturalis Historia (História Natural), de Plínio, o Velho, escrito no século anterior, mas de um ponto de vista moral: o estilo distintivo dos verdadeiros bestiários; como os medievais, nos quais abunda o anedotário e a moralidade característica das fábulas.
No Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, o bestiário é uma lente que observa a história, a ciência e o oculto (as restantes três vias) à luz da nossa ligação ao mundo natural, e aos mitos a ele associados, cifrando-se como um molde no qual todas as vias coalescem e a mensagem do livro ganha forma.
Imagens: um cavaleiro caça um unicórnio, numa iluminura do Physiologus de Berna, compêndio composto na cidade setentrional francesa de Reims, no século IX, a partir de outras cópias do Physiologus original; três cachalotes varados na praia, numa gravura do artista holandês Jan Wierix, datada de 1577, e rematada num registo que evoca a célebre gravura do rinoceronte da autoria do artista alemão Albrecht Dürer (realizada sessenta e dois anos antes), e que se apresenta como um desenho de transição entre o feitio fabuloso dos bestiários medievais e a rigorosa ilustração científica contemporânea.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Oculto: a terceira via

A palavra oculto foi usada no domínio das filosofias naturais (nome pelo qual eram conhecidas as ciências, como vimos na publicação anterior sobre a "segunda via") para designar propriedades físicas que não podiam ser observadas directamente, mas desvendadas através de experiências heurísticas. Os filósofos naturais de raiz aristotélica deram o nome de ocultas a determinadas especialidades escondidas da matéria que eles acreditavam ser as causas de efeitos observáveis. No desenrolar do século XVII, a palavra oculto começou a ser aplicada às - consideradas retrógradas - práticas alquímicas, astrológicas e teosóficas (não-blavatskianas). A magia - não só o fabrico de mezinhas e tisanas, mas também os métodos utilizados para comunicar com criaturas espirituais e até com Deus (o misticismo) - também adquiriu a cabal conotação de conhecimento ocultista. Em sequência, quando hoje se fala no "oculto" fala-se de um grupo heterogéneo de disciplinas e tradições: uma mistura sincrética de assuntos que somente têm em comum a grande distância que partilham em relação ao tronco do conhecimento aceite institucionalmente. Em suma: a noção de que o "oculto" e o "esotérico" são sinónimos e a de que ambas as palavras se referem a superstições e intrujices de carácter mais ou menos popular são erradas, como irá descortinar-se.
No Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, a trajectória do oculto é contextualizada com rigor histórico; assim como são desmistificadas algumas das suas faces mais influentes. Nas suas páginas irá descobrir-se qual foi a importância das operações ditas ocultistas para o desenvolvimento das ciências e no que consistiram. Também se irá viajar, sem rede, até ao lado negro de estranhos rituais e suas consequências perigosas.
Imagem: O Menino Jesus abre um coração e varre para o exterior o mal que se aninhava lá dentro, personificado por um bando de animais repugnantes, como répteis e vermes (gravura datada dos primeiros anos do século XVII, realizada pelo artista holandês Anton Wierix e pertencente à sua série de emblemas cardiomórficos, reunidos sob o título Cor Iesu Amanti Sacrum [Amantes do Sagrado Coração de Jesus], exaltantes do Culto do Sagrado Coração de Jesus). Esta gravura foi inspirada num versículo do livro profético Isaías, retirado de uma passagem que consiste numa sátira contra o rei da Babilónia: «Reduzi-la-ei a um ninho de ouriços e a um pântano e varrê-la-ei com a vassoura da destruição - oráculo do Senhor dos Exércitos» (14:23).
A Companhia de Jesus, criada em 1534 pelo monge basco Iñigo de Loyola (Inácio de Loyola - o nome Iñigo é pré-romano; a sua forma latinizada é Enneco), e confirmada por bula papal em 1540, definiu-se como sendo uma das mais racionais ordens religiosas ocidentais, mas, apesar disso, é aquela que mais vezes é retratada nas diversas teorias de conspirações como operadora de actividades ocultistas.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Ciência: a segunda via

As diversas ciências reúnem saberes racionais e deram-nos as mais exactas e úteis explicações sobre o mundo, assim como continuam a oferecer-nos novos conhecimentos através das técnicas organizadas segundo o método científico, baseado na experimentação empírica e mensurável dos fenómenos naturais. Os resultados das experiências são sempre apresentados à restante comunidade científica, em comunicações restritas ou em jornais especializados, para serem avaliados e, desse modo, todo o conhecimento científico é revisto e aperfeiçoado até alcançar o maior rigor possível. Porém, métodos rigorosos de observação não são, por si só, uma garantia de boas intenções e neste livro poderão ler como indivíduos menos nobres se serviram do método científico para alcançarem objectivos verdadeiramente desastrosos (de outro modo, como poderia ser um compêndio de segredos sombrios e factos arrepiantes?).
De maneira geral, as religiões odeiam a ciência, porque enquanto esta se faz de mudança aquelas suportam-se na imutabilidade das revelações que lhes estão nas origens. Com efeito, o modo como o conhecimento científico é aperfeiçoado e ampliado à luz de novas descobertas e interpretações é algo que as religiões são incapazes de compreender (uma nova interpretação religiosa é vista como sendo uma heresia). No entanto, a distância entre ciência e religião já foi mais curta e pacífica.
Na Idade Média, por exemplo, designada erroneamente como a "idade das trevas", a maioria dos cientistas foi composta por clérigos que não viram nenhum impedimento em explicar a Criação através da experimentação empírica; essa atitude ainda ecoa em alguns clérigos contemporâneos, mais esclarecidos, que defendem que explicar o universo através da ciência não consiste em nenhuma blasfémia. Esta é, contudo, uma atitude muito diferente daquela que está na origem, por exemplo, do Prémio Templeton, criado em 1972, e que recompensa os investigadores que usam a ciência para credibilizar crenças religiosas ou aqueles que procuram reconciliar a religião com a ciência. Na mente dos cientistas medievais - chamavam-se a eles próprios filósofos e, mais tarde, filósofos naturais - não era precisa qualquer reconciliação, porque ambas as áreas não concorriam, de todo. No seu livro Rocks of Ages (1999), o cientista norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002) desenvolveu um conceito que criara dois anos antes, num artigo publicado na revista Natural History, a que chamou non-overlapping magisteria (magistérios não-sobreposicionais): abreviando, o NOMA de Gould advoga que a ciência e a religião são dois magistérios que não concorrem - isto é, evidentemente, o lema dos primeiros clérigos cientistas, como o doctor mirabilis Roger Bacon (1215-1292), frade franciscano inglês e um dos pioneiros do método científico.
Infelizmente, a igreja não conservou este ponto de vista, como comprova, entre outros eventos, o julgamento inquisitorial do cientista italiano Galileu Galilei (1564-1642), em 1616, no qual foi obrigado a renunciar à "heresia" heliocêntrica. Mesmo assim, as famosas palavras eppur si muove (no entanto, ela move-se), que terá proferido em voz baixa após a renúncia, diante dos examinadores, são apócrifas: foram inventadas em 1761 pelo abade francês Augustin Simon Irahil no livro Querelles Litteraires.
Imagem: Representação de uma célebre experiência sobre o vácuo, realizada em 1650 pelo cientista alemão Otto von Guericke (1602-1686), e que consistiu no seguinte: Guericke uniu dois hemisférios de cobre, com cerca de cinquenta centímetros de diâmetro (os famosos Hemisférios de Madgeburgo, cidade em que nasceu), e usou uma bomba de sucção de sua invenção para sugar todo o ar contido dentro dessa recém-criada esfera. De imediato, usou uma parelha de dezasseis cavalos (oito para cada hemisfério) que, puxando com vigor em direcções opostas, não foram capazes de separar as duas metades. Treze anos mais tarde, na corte de Friedrich Wilhelm I, duque da Prússia, Guericke repetiu a experiência, usando uma parelha de vinte e quatro cavalos, e, novamente, mostrou a força imensa do vácuo. Esta palavra provém do nome latino vacuu, que significa vazio.
Infelizmente, ainda hoje o vazio tem uma força tremenda.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
História: a primeira via

Porém, a história nem sempre foi observada como sendo, por mérito próprio, uma disciplina feita de registos fidedignos: nas tradições clássicas gregas e romanas aceitou-se que os historiadores, entre os quais figuraram nomes de charneira como Políbio ou Tito Lívio, inventassem cenários para inserirem as personagens do passado, atribuindo-lhes ainda longos discursos. Isto seria, certamente, um resquício do ensino tradicional, operado oralmente: exigia-se aos alunos que exercitassem a arte da memória e provassem os seus conhecimentos através de esforçadas exposições orais (hoje, os alunos demonstram os conhecimentos aprendidos, mediante um teste escrito - uma prática que, na verdade, é milenária e foi inventada pelos chineses, durante a dinastia Han).
Uma leitura comparada das histórias romana e grega comprova como uma foi escrita sobre a outra, com diversos eventos e figuras pretéritas reflectidas em outras mais recentes. Curiosamente, Lívio oferece-nos em Ab Urbe Condita Libri (Livros da Fundação da Cidade [de Roma]) um exemplo pioneiro da chamada "história contra-factual" quando especula se a civilização romana teria sido capaz de derrotar Alexandre, o Grande, caso este tivesse invadido os territórios mediterrânicos, em vez de ter morrido na Babilónia (Lívio diz peremptoriamente que sim).
Imagem: De Schilderkunsnt (A Pintura) de Johannes Vermeer (1668). Neste quadro magnífico, o próprio Vermeer apresenta-se de costas para o observador, enquanto pinta uma modelo vestida de Clio, a musa da história.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
As Quatro Vias

Na Idade Média, as Sete Artes Liberais foram legitimadas no ambiente escolástico, como sendo os Sete Pilares da Sabedoria, pela colagem a um versículo do livro bíblico Provérbios: «A sabedoria edificou a sua casa, levantou sete colunas» (9:1). No século V, um escritor chamado Martianus Capella, contemporâneo (e, se calhar, vizinho) do teólogo Agostinho de Hipona, escreveu um livro intitulado De Nuptiis Philologiae et Mercurii (Sobre as Bodas da Filologia e Mercúrio): nesse trabalho, muitíssimo influente, as Sete Artes Liberais são os "presentes" de casamento (na verdade, apresentam-se como sendo uma espécie de aias) oferecidos a Filologia e as representações inventadas por Capella ainda se mantém mais ou menos intactas. De um ponto de vista prático, estas disciplinas encontravam-se divididas em dois grupos: o trivium e o quadrivium (três vias e quatro vias); categorizações entre o conhecimento associado "às letras" e o conhecimento associado "à matemática", respectivamente, que marcaram o desenvolvimento medieval das summae.
Com efeito, foi durante a Idade Média que se fortaleceu o desejo dos doutos de registar todo o conhecimento - uma atitude ambiciosa que, surpreendentemente, foi olhada com desdém pelos filósofos humanistas do Renascimento que tomavam como garantido que o conhecimento total era impossível de alcançar, logo tentá-lo era uma estupidez. As summae, dedicadas a diferentes áreas do saber, buscaram o nome à palavra latina summa que é uma abreviatura da designação summa linea (linha de cima): de acordo com o velho hábito romano, as somas faziam-se de baixo para cima e o total era calculado na linha cimeira. Uma boa tradução para summa, no sentido enciclopédico, é compêndio.
Nessa óptica, o meu Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes está arquitectado num quadrivium muito particular: quatro vias heterogéneas de conhecimento, mas com múltiplos pontos de contacto entre si, sobre as quais assenta todo o conteúdo do livro. Quais são essas quatro vias? Irei desvendá-las em breve.
Imagem: páginas de De Secretum Philosophorum (Sobre o Segredo dos Filósofos), summa do século XIV, atribuída sem fundamento ao teólogo alemão Albertus Magnus (1193-1280) que, por mérito próprio, tentou criar um grande compêndio de todo o conhecimento, projectando para o efeito a escrita de quarenta volumes.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
O que é o "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"?
Os meus romances costumam apresentar bibliografias extensivas nas quais, em conjunto com os pormenorizados apontamentos finais, listo todos os livros de não-ficção que li para poder desenvolver as ficções. Faço-o porque me dá um prazer enorme ir “aos bastidores” dessas ficções e partilhar um pouco dos meus conhecimentos com os leitores. Acho que essas espreitadelas ao lado polar da cortina são excelentes formas de contextualizar a ficção. Porém, este Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes não é uma espreitadela por trás da cortina: é um empurrão.
Está cheio de diabos, monstros, gente louca, gente violenta, gente com quem ninguém quer ir beber um café. Uma amiga disse-me, uma vez, «oh, tu desmistificas tudo»: podem crer que esse é um verbo de ouro nas páginas deste título. Parte miscelânea, parte enciclopédia e parte ensaio, é um livro de conhecimentos para leitores que, como eu, são fãs de conhecimento e não receiam procurar a verdade sobre os assuntos, mesmo que isso signifique arruinar concepções enraizadas, mas erradas. Poucas coisas são tão destrutivas quanto isso (eu acho que vale a pena) e este livro é tudo menos superficial. Porém, recordando as imortais palavras de Apuleio, «Lector intende: laetaberis». («Atenção, leitor: irás divertir-te».)
Neste weblog irei publicar regularmente novidades exclusivas sobre o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, cuja data de saída está calendarizada para a próxima Feira do Livro de Lisboa, que ocorrerá entre 24 de Abril e 13 de Maio. Fiquem atentos.
